segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Marcelo Gleiser: a escolha é sua - destino ou livre-arbítrio


"Para mim, parece que o livre-arbítrio não é simplesmente 'preto e branco' ou 'sim e não', mas uma questão que abraça completamente a complexidade do que significa ser humano." - Marcelo Gleiser

Físico brasileiro, Marcelo Gleiser reflete sobre a questão do livre-arbítrio com base nos estudos da neurociência. É o livre-arbítrio uma ilusão? Confira abaixo:


Todos querem ser livres ou ao menos terem alguma escolha na vida. Todos temos nossas vidas profissionais, família e comprometimentos sociais. Por outro lado, grande parte das pessoas acredita que são livres para escolher o que fazem, do mais simples ao mais complexo: devo tomar café com açúcar ou adoçante? Coloco o dinheiro na poupança ou gasto tudo? Devo votar nas próximas eleições? Devo me casar com a Carmem ou não?

A questão do livre-arbítrio é essencialmente uma questão de agente, de quem está encarregado enquanto cruzamos a vida fazendo tomando diversos tipos de decisão.

Tradicionalmente, tem sido um tópico para filósofos e teólogos. Mas, trabalhos recentes na neurociência estão forçando uma reconsideração sobre o livre-arbítrio, ao ponto de questionarem nossa liberdade de escolha. Muitos neurocientistas e alguns filósofos consideram o livre-arbítrio uma ilusão. Sam Harris, por exemplo, escreveu um livro sobre o tema.

Sua conclusão chocante vem de uma série de experimentos que revelaram algo impressionante: nossos cérebros decidem o curso da ação antes de sabermos. Dos estudos pioneiros com eletroencefalograma de Benjamin Libet, nos anos 1980, a investigações mais recentes usando ressonância magnética ou implantes diretamente nos neurônios, a região motora responsável por executar um movimento em resposta disparou antes da mente decidir sobre o movimento.

Se isso for verdade, as escolhas que pensamos que estamos fazendo, expressões de nossa liberdade, são feitas de forma subconsciente sem nosso controle explícito. É possível que sejamos tão iludidos?

A situação não é tão simples, porque definir livre-arbítrio é complicado. Uma definição operacional é que livre-arbítrio é a habilidade de tomar decisões. Claro, estamos sempre sujeitos a todos os tipos de constrições em nossas vidas, da genética a como somos criados. Não existe uma página em branco sobre a qual decidimos. Mesmo assim, não pode ser que sejamos levados a crer que somos os agentes conscientes de opções quando não somos?

Um argumento popular contra o livre-arbítrio é o seguinte: imagine que, no futuro, cientistas serão capazes de mapear e decodificar todos os nossos estados mentais com precisão. Eles, então, poderão prever o que você fará antes que você saiba de sua decisão. Se esta situação algum dia for possível – e me parece que não é por muitos motivos – a ideia de livre-arbítrio estaria em problemas. Mas, claro, tal abstração é mera fantasia: máquinas não podem medir todos os nossos estados mentais em rápida sucessão se nem nós sabemos como esses estados emergem. Qualquer medição que precise rastrear bilhões de neurônios e trilhões de sinapses em um espaço de tempo é improvável.

Há um risco de trivializar a questão, cortando-a para que possa ser analisada quantitativamente. Os experimentos estão limitados a decisões longe da verdadeira complexidade das escolhas que fazemos em nossas vidas, aquelas que envolvem muito pensamento cíclico, confusão, ponderação, conversa com outras pessoas e tempo para chegar a uma conclusão. Existe um grande abismo entre a complexidade cognitiva e apertar botões em um laboratório para decidir com quem você vai casar, qual profissão seguirá ou se você cometerá um assassinato (colocando desordens mentais de lado). Quando se trata das decisões que tomamos na vida, existe um espectro de complexidade e isso se reflete no livre-arbítrio. Alguns de fato acontecem antes da consciência ter conhecimento e outros não.

Para mim, parece que o livre-arbítrio não é simplesmente "preto e branco" ou "sim e não", mas uma questão que abraça completamente a complexidade do que significa ser humano.


Fonte: Fronteiras do Pensamento.

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