sábado, 1 de fevereiro de 2014

Os rolezinhos e a casa da mãe Joana - artigo de Marcos Cavacanti


"Casa-da-mãe-joana é uma expressão de língua portuguesa que significa o lugar ou situação onde vale tudo, sem ordem, onde predomina a confusão, a balburdia e a desorganização. Sua origem remonta ao século XIV". (Wikipedia)

Se tem um programa que não gosto de fazer é "ir a shopping". Não vejo graça nenhuma em ficar andando de um lado para outro, no meio de uma multidão, para pagar mais caro... Sem falar no estacionamento: ficar horas procurando vaga (alguns shoppings resolveram este problema colocando sensores nas vagas) me irrita profundamente. Reconheço que as vezes é cômodo e prático, quando precisamos comprar mais de um presente, mas realmente prefiro fazer outras coisas.

Há dez anos atrás fui passar um carnaval em Tiradentes (MG), certo de poder descansar e curtir uma cidade que é belíssima! Ledo engano... A cidade foi invadida por um monte de gente com seus carros passeando para cima e para baixo com a mala aberta, tocando uma música bate-estaca em altíssimo volume! Resolvemos ir para um parque curtir a natureza e ouvir os passarinhos... Qual o que. De repente chegou um grupo dentro de um carro, levantou a mala do carro e lá veio a música a todo volume! Meia hora depois encheram o saco e desligaram a música. Eu aplaudi e comentei: finalmente vamos poder ouvir a natureza!

Pra que? Na mesma hora dois garotões vieram pra cima de mim vociferando: "os incomodados que se mudem! Isto aqui é um espaço público!". Não adiantou eu argumentar que exatamente porque era um espaço público a gente não pode fazer o que bem entende. O que eles achariam se eu colocasse uma música que gosto ainda mais alto que a música dele? Algumas pessoas que estavam perto entraram na conversa e TODAS elas deram razão aos caras: o espaço era público! Cada um pode fazer o que bem entende, e os "incomodados que se mudem"...

Encorajados pelos desconhecidos, os garotões foram pegar um pedaço de pau, enquanto eu resolvi pegar o carro e ir embora... Quando viram que eu estava indo embora, saíram correndo para o carro deles pra vir atrás de mim! Entrei correndo com o carro num hotel e eles passaram sem me ver... Ufa!

Em diversos outros momentos pude confirmar que esta noção de que o espaço publico é a "casa da mãe Joana" é largamente majoritária no Brasil. As pessoas, na sua maioria, acham que a praia, as praças e os parques, por serem públicos, são um espaço "democrático" onde todos podem fazer o que quiser.

Eu, mesmo correndo o risco de ser impopular, não penso assim. Uma regra básica de convivência democrática é que todos podem fazer o que quiser, desde não prejudique os outros... Se cada um colocar o som na altura que lhe é conveniente ou prazeroso, a cidade vai se transformar num inferno!

Um shopping center não é um espaço público, mas um local de acesso público. Como uma igreja, uma loja ou um prédio comercial. Discriminar a entrada das pessoas pela cor da pele ou pelo fato delas estarem em grupo é uma barbaridade! Mas as pessoas não podem fazer o que lhes der na telha dentro do shopping. Não poderiam nem mesmo numa praça pública, não é? O que pode e não pode ser feito é uma construção social. Num estádio de futebol as pessoas podem entrar de calção e sandália, cantar e gritar, mas não podem partir pra agredir os torcedores adversários. Numa igreja, as mulheres não podiam entrar de calça até outro dia e ninguém entra de calção de banho ou biquini, e só se pode cantar as músicas que o padre entoa...

Os rolezinhos podem ser uma forma bem humorada de um monte de jovens se divertir, mas manifestações cidadãs e democráticas não transformam o espaço público e muito menos o privado na casa da mãe Joana. Eu realmente não gosto do consumismo exagerado e não tenho nenhum prazer em ir aos shoppings centers. Não tenho nenhuma razão para defendê-los, mas encorajar as pessoas a fazer dentro do shopping tudo o que quiserem é estimular um comportamento antidemocrático e nada cidadão.

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