Entrevista: professoras usam o podcast para divulgar a Antropologia

Já dizia o saudoso Chacrinha: "quem não se comunica, se trumbica". Ou seja, quem não interage, se dá mal, vai para o beleléu. E para não sucumbir, a comunidade científica tem percebido cada vez mais, ainda que em seu próprio ritmo, que ocupar espaços sociais de comunicação é fundamental para se manter viva, ter apoio social e político e aumentar os recursos humanos, financeiros e materiais para desenvolver estudos. 

Para isso, é preciso acompanhar as novidades, as Tecnologias da Informação e Comunicação, saber as tendências de informação das pessoas. Sim ... cientistas também têm que acompanhar as "modinhas". E é nessa sintonia que está um grupo de professoras de Antropologia da Universidade de Brasília (UnB) e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Elas se juntaram para criar o podcast Mundaréu, um programa de divulgação científica que apresenta experiências e curiosidades sobre a Antropologia, uma ciência que em geral é pouco compreendida pela ampla sociedade. O podcast já lançou todos os seis episódios da primeira temporada e está prestes a lançar as novas edições. Você pode acompanhar o Mundaréu pelo site mundareu.labjor.unicamp.br ou pelo Spotify.

O blog Dissertação Sobre Divulgação Científica conversou com uma das criadoras do podcast, a professora Soraya Fleischer, do Departamento de Antropologia da UnB. Ela falou tudo e mais um pouco sobre o podcast: os desafios do processo produtivo, as dificuldades de realizar o trabalho durante a pandemia, a importância da divulgação científica em Antropologia, o envolvimento dos estudantes, o currículo de formação dos profissionais da área, e muito mais! 

Confira a entrevista!

Registro de uma gravação do Mundaréu (da esq. para a dir.): 
Daniela Manica, Soraya Fleischer, Artionka Capiberibe e Patrícia Barbosa.


Como surgiu a ideia de criar o Mundaréu?
A academia utiliza muito a linguagem escrita para comunicar análises e resultados de pesquisa. É o espaço histórico, clássico, consolidado. Mas, mesmo com a ampliação do acesso aos materiais escritos pela academia – sobretudo pelo advento da internet e dos repositórios de periódicos, dissertações e teses – nem sempre é fácil encontrá-los, nem sempre é fácil entendê-los. A linguagem acadêmica é bastante hermética, muitas vezes utilizando a sofisticação como uma forma de preservar o prestígio e a hierarquia. 

Além disso, a Antropologia – entre as três Ciências Sociais – é a menos conhecida. O nome suscita curiosidade, somos confundidos com arqueólogas, antropófagas, etc. Então, o podcast surge com o principal objetivo de apresentar, traduzir e ampliar o entendimento do que é a área, do que faz uma profissional que se forma nessa área, onde pode trabalhar etc. 

Então, por um lado, o Mundaréu quer usar uma linguagem mais acessível e informal e, por outro, falar de Antropologia, de ciência, de universidade e transformar tudo isso em mundos mais próximos, acessíveis e interessantes. 

Eu trabalho no Departamento de Antropologia da UnB e propus a uma querida amiga e colega da área que começássemos a imaginar um projeto de podcast. Daniela Manica, também antropóloga, tinha acabado de começar a trabalhar no Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Unicamp, o Labjor. Era um lugar ideal para pensarmos nesse formato de divulgação científica via áudio. O Labjor já tem uma grande experiência nesse sentido. Daniela topou a proposta e fomos, ao longo do ano de 2019, construindo o formato, as parcerias, a logística etc.

De onde vem o nome Mundaréu? 
Não queríamos um nome para o podcast que tivesse os termos “pod”, “cast” nem “antropologia”, “antropo”, “antro”. Já há muitos outros programas que recorrem a esses sufixos e prefixos. Queríamos um nome que tivesse um significado em si mesmo, que não viesse da conjugação de partes e pedaços de outras palavras. Um termo que se sustentasse e, mais importante, que evocasse ideias.

A Antropologia tem por interesse o mundo, o mundão, a diversidade de povos, populações, sociedades. Queremos conhecer e entender o outro país, a outra cultura, o outro bairro. O termo remete ao mundo e também remete ao coletivo, um conjunto de coisas, uma renca de ideias, um tanto de temperos, um mundaréu de gente, como se diz muito lá em Minas. (Minha família é mineira). Por isso, inclusive, se você bem reparar, as imagens que usamos no site do podcast são sempre de conjuntos ou coleções, para sugerir o social, a sociedade, esse pressuposto importante para os estudos da Antropologia.




Como é o processo produtivo dos podcasts - escolha dos temas, dos participantes, formação das equipes, distribuição de tarefas, estrutura de apoio, recursos financeiros, parcerias ... ? 
Essa é uma pergunta longa, precisaria de espaço e tempo para responder. Mas, de modo resumido, escolhemos uma antropóloga que esteja realizando uma pesquisa legal, enunciando coisas interessantes e inovadoras. Nós a convidamos para participar e, uma vez aceito o convite, ela deve convidar uma de suas interlocutoras de pesquisa para a nossa conversa. Então, o formato do Mundaréu é trazer para o microfone essa dupla – pesquisadora e sua interlocutora. Queremos, com isso, desestabilizar a narrativa canônica e mais convencional nas Ciências Sociais, em que a pesquisadora é quem fala, é quem narra sobre sua pesquisa e os respectivos resultados. Com a dupla, serão duas versões em cena, por vezes, em consenso, por vezes, em dissenso e debate. Esse formato desaloja a pesquisadora de toda a verdade e palavra final sobre aquela pesquisa. 

Primeiro, realizamos uma conversa preparatória, pelo telefone, com cada uma das entrevistadas. É o momento de dirigir a elas perguntas amplas e ver o que e como contam, que histórias interessantes surgem. A partir dessas conversas, montamos um roteiro de perguntas e assuntos e estamos prontas para fazer o encontro mais amplo. Agendamos e vamos as quatro – as duas convidadas e as duas anfitriãs – para dentro do estúdio. Toda a primeira temporada do Mundaréu foi gravada de modo presencial. Já a segunda temporada precisará contar com gravações remotas, por conta da pandemia do novo coronavírus. 

Tanto as conversas telefônicas quanto a conversa em estúdio são gravadas e transcritas. Aqui, contamos com estudantes bolsistas de iniciação científica. A partir desses materiais, temos condições de produzir o roteiro de edição. É a partir dele que outro estudante faz o corte de áudio. Depois, vamos ouvindo, editando, limpando, lapidando até chegarmos à versão final. Outras estudantes ajudam a atualizar o website sobre aquele episódio novo e a criar posts para divulgá-lo nas mídias sociais (Facebook, Twitter e Instagram). 

Dessa forma, o Mundaréu é um projeto de pesquisa, ao conhecer e traduzir pesquisas realizadas na Antropologia. É um projeto de extensão porque faz esse debate chegar mais longe e para muito além da universidade. É, também, um projeto de ensino, já que envolve estudantes, oferece-lhes oportunidades muito práticas para aprimorarem habilidades teóricas e técnicas que serão uteis no mercado de trabalho. 

Em termos de parceria, a UnB e a Unicamp são duas universidades que trabalham juntas e diretamente no projeto. O Labjor nos oferece espaço virtual para o website, email e a nuvem de arquivos do Mundaréu. Nossos departamentos ajudam muito na divulgação dos novos episódios nas redes internas das universidades. Os estudantes envolvidos no projeto ajudam a divulgá-lo entre o público discente e suas respectivas famílias. Importante também é a parceria com o estúdio da Rádio da Unicamp e com a Rádio do Centro de Educação a Distância (CEAD) da UnB, que nos facultam o uso do espaço, equipamentos de gravação, técnicos de som. 

Em termos de recursos, contamos com bolsas de iniciação científica, iniciação à docência e extensão para os estudantes da equipe. Como professoras, temos bolsas de produtividade em pesquisa que nos permitiram transitar entre Campinas e Brasília. Projetos de pesquisa e extensão nos ajudaram a comprar equipamentos de gravação e captação de som e a custear a participação em eventos acadêmicos para apresentar resultados dessa experiência toda. 

Quais foram e são as principais dificuldades para criar e manter o podcast? 
Eu divido os desafios em grupos:

1) Encontrar uma linguagem comum e compartilhada para o projeto, já que envolve duas universidades, vários estilos de produção de Antropologia etc. Quer dizer, afinar expectativas e projeções para o Mundaréu; 

2) Encontrar, conhecer e definir as tecnologias de software livre e de qualidade para gravar, editar, veicular o podcast; 

3) Envolver os estudantes para além de suas tarefas pontuais, mas no projeto como um todo, na ideia de divulgação científica como parte da formação universitária; 

4) Contornar a falta de recursos para viajar além do eixo Brasília-Campinas e poder, por exemplo, acompanhar as antropólogas em suas viagens de trabalho de campo, por exemplo, em aldeias, outras cidades, parques nacionais, laboratórios etc.; 

5) Divulgação que faça o podcast vencer os limites da universidade, sair da bolha de classe média ouvinte de podcasts; 

6) Não reduzir realidades, que são imensas e complexas, em 40 minutos de episódio. O tom e a análise que fazemos nos episódios não podem ser resolutivos, encapsulantes, essencializadores. Estamos falando, afinal, a partir e também para uma área que tem por patrimônio as monografias, textos de 400 páginas para explicar um ponto, um rito, uma prática. Há um gigantesco desafio ao trafegarmos por outro formato, muito mais enxuto, muito mais direto; 

7) As Ciências Sociais têm por tradição a leitura, a letra, o livro. O tipo de concentração exigido para ler é muito diferente do que para ouvir. Há um desafio em socializar as pessoas para o podcast, para o tempo de um episódio, mais longo do que uma música, um bloco de um programa de rádio. Apostamos que a contação de histórias e a narrativa pessoal sejam bons argumentos nesse sentido. 

Que avaliação você faz das produções até então realizadas e do retorno do público, a repercussão? 
Acho que o Mundaréu está, pouco a pouco, ganhando o mundo e fico muito feliz com isso. Recebemos retornos de colegas, estudantes e comunidades de várias partes do país, de universidades menores e maiores, de cidades metropolitanas e recônditas. Ele já foi usado em sala de aula, em fóruns de discussão e estudos, em associações comunitárias, em grupos de WhatsApp. Já foi ouvido na cozinha com a família, no transporte solitário, no encontro de amigos, na sala de aula. 

O retorno, em geral, é positivo e entusiasmado. Muita gente agradece por estarmos usando outra linguagem e outro formato, por estarmos falando de Antropologia de modo mais acessível e informal, de mostrarmos como a área pode ser importante num momento em que tantos direitos sociais e civis estão em risco, em que tantas populações tradicionais têm sido atacadas, em que as Ciências Humanas têm sido invalidadas em sua importância e foco de estudos - inclusive por quem deveria nos proteger e estimular, como o Ministério da Educação, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, o Ministério dos Direitos Humanos, a Fundação Palmares etc. 

Aos poucos, o Mundaréu vai chegando, mas acho que falta muito ainda, falta circular mais ampla e diversamente. Temos que inventar outras formas de divulgação, sermos mais insistentes e estratégicas nas mídias sociais. Também acho que devemos entrevistar mais antropólogas de outras regiões e não somente do eixo São Paulo e Região Sudeste, onde tivemos que ficar por falta de recursos e agora por falta de mobilidade física. Temos que dominar melhor a linguagem radiofônica, o jeito de falar, a cadência, ritmo e carisma que a voz pode alcançar. Temos que deixar o roteiro e conseguir comentar os assuntos de modo mais espontâneo e envolvente. Sinto que é toda uma nova alfabetização que estamos fazendo, reinventando a forma de sermos acadêmicas depois de ter passado tanto tempo fixas no texto escrito. Esses são alguns pontos da autocrítica que eu faço do trabalho. 

O que o público pode esperar para a segunda temporada do Mundaréu? Como estão o planejamento e as produções? 
A primeira temporada está pronta, começou em novembro de 2019 e terminará agora em julho de 2020. Serão 8 episódios com frequência mensal. A segunda temporada seguirá com o mesmo formato, a conversa de duas com outras duas. Duas anfitriãs e duas convidadas, sendo uma antropóloga e sua interlocutora de pesquisa. Já começamos a gravar a próxima temporada e vamos editando os episódios aos poucos para o lançamento acontecer no segundo semestre de 2020. 

Se a pandemia nos permitir, quem sabe conseguimos chegar aos espaços onde as pesquisas têm sido realizadas, sair do estúdio, viajar um pouco, conhecer os locais onde o trabalho de campo antropológico tem sido feito. Carregar o gravador, usar microfones móveis, enfrentar o que as colegas enfrentam, ônibus, barco, floresta, terreiro, burocracia, espera, emoção, encontros, silêncios, conflitos e tanta coisa mais. 

Além disso, teremos uma série experimental, “O mundo em sala de aula”, que talvez seja um título provisório ainda. São episódios mais curtos, de 12 a 15 minutos, feitos pelos estudantes para os estudantes. Discentes de nossa equipe vão eleger temas que ainda não foram tratados no Mundaréu e produzirão seus próprios episódios. A ideia é que essa série funcione como um eficiente recurso didático. 

O quanto a pandemia está afetando a produtividade do Mundaréu?
Como estávamos em duas universidades, localizadas em cidades e regiões diferentes, já vínhamos trabalhando intensamente de modo remoto. Já tínhamos, então, um modus operandi facilitado e possibilitado pelo e-mail, aplicativos de comunicação, drives que permitem a edição coletiva, nuvens de arquivos. 

Mas nunca tínhamos gravado à distância. Agora, para a segunda temporada, temos começado a fazer isso. Há um desafio, não só técnico em termos de qualidade de som, mas de conseguir promover o encontro e a mística necessária para uma boa conversa. Por isso, é importante usarmos recursos para nos vermos, para ter algum tipo de olho no olho (mesmo que mínimo), além de bons captadores de som. Todos os podcasters têm, nesse momento, pedido desculpas pela queda da qualidade do som. Então, estamos numa zona segura, com mais tolerância por parte do público. 

Como a Antropologia pode ajudar as pessoas a entender o mundo em que vivemos? 
O que a Antropologia melhor faz é mostrar como algo que, a princípio e olhando de longe, parece muito estranho e incompreensível, tem a sua própria lógica interna, sua forma de organizar as ideias e entender o mundo. Estranhamento é uma questão de tempo, quer dizer, tem prazo de validade. Precisamos escutar o que o outro tem a contar, as histórias que ele elege como prioritárias para se explicar ao mundo, precisamos entender por que e como ele conta essas histórias e ao que elas remetem de modo mais amplo. 

Então, a Antropologia nos ajuda a nos aproximar de mundos e ideias que, por tantos motivos, temos muito medo, ojeriza e até abjeção. No final das contas, não precisamos virar esse outro, comprar nem concordar com tudo o que ele fala. A Antropologia não deseja, de modo algum, repetir intenções proselitistas e civilizatórias que já dizimaram tantas sociedades no passado. Mas conhecer um pouco melhor o outro ajuda a conseguir conviver melhor com ele, estar ao seu lado sem que a coexistência seja aniquiladora, viver com a diferença sem que isso violente nenhum dos dois lados. Acho que é por aí que a Antropologia pode nos ajudar a entender e conviver nesse mundo, repleto de diferenças  - o que, repito, não é um problema - e, infelizmente, repleto de intolerâncias e fascismos  - aí, sim, é onde está o problema. 

Na sua opinião, o quanto dos conceitos da Antropologia é apropriado pela sociedade em geral? O que o grande público conhece sobre a Antropologia? 
Na página de abertura do site do Mundaréu, há o teaser que criamos para apresentar o podcast antes de seu lançamento, para convidar as pessoas a conhecer o programa. Nesse teaser, brincamos com as diversas imagens que geralmente são atribuídas à Antropologia. Ali você encontra o que o grande público imagina que nós fazemos. 

É uma brincadeira, mas há um tom crítico ali, porque algumas daquelas imagens são muito distantes de nosso ofício. Nos frustra, claro, sermos tão desconhecidos, tão opacos ao público em geral. E o Mundaréu nasce com a vontade de falar mais sobre a área, traduzi-la e facilitar o seu uso por mais gente. 

Em termos de conceitos, talvez “cultura”, “sociedade”, “diversidade” sejam os mais conhecidos e utilizados. Mas com o risco de, por vezes, servirem para re-estigmatizar populações, mantê-las em guetos e afastadas. A diversidade, em tempos fascistas e de extrema direita como o que vivemos, é um grande problema. É o mote a ser combatido quando direitos de minorias, por exemplo, são tidos como desnecessários e desimportantes, e simplesmente invalidados e atacados como “mimimi”. 

O currículo de formação do antropólogo prevê alguma disciplina ou atividade sobre a importância de divulgar a Antropologia para a sociedade em geral? A divulgação científica compõe formalmente o currículo de formação dos antropólogos?
Infelizmente, não. Nos cursos onde eu fui formada - da UnB, UFRGS e Johns Hopkins - nunca vi um curso sequer sobre divulgação científica. No curso em que eu dou aula hoje, 20 anos depois de ter sido aluna, o currículo é exatamente o mesmo, sem disciplinas nesse sentido. 

Minha posição é a de que aprender a divulgar o que se pesquisa e os principais resultados dessa pesquisa é uma perspectiva ética e política fundamental. É uma forma de honrar o que lhe foi confiado e contado pelos seus interlocutores, ao fazer as ideias e opiniões deles sobre o mundo irem para mais longe. 

A antropóloga é mais uma, entre tantas, das pessoas que podem fazer esse tipo de mediação. É uma forma de justificar os recursos que recebemos, sempre públicos, fazendo com que o estudo chegue a outras populações que podem ter as suas vidas melhoradas a partir daqueles resultados. É uma forma de mostrar a importância da nossa área para entender, analisar e traduzir o mundo que é, de fato, muito complexo. Se a Antropologia se mantiver somente dentro da universidade, ela não será conhecida fora dali, não será defendida fora dali e não será defendida quando sofrer ataques, tiver recursos cortados, tiver a legitimidade questionada. 

Na UnB, por exemplo, a divulgação científica poderia começar como uma iniciativa de formação partindo da administração superior, pelos seus decanatos e centros de capacitação técnica. E depois adaptados e customizados para a realidade de cada departamento, a partir do tipo de pesquisa que esse departamento produz, do público que se deseja e precisa sensibilizar. Iniciativas exitosas de divulgação científica na UnB poderiam ser reunidas no website da universidade, para conhecermos e nos inspirarmos. 

Como o Mundaréu pode ajudar na formação dos estudantes de Antropologia? 
Ao ouvir, em primeira pessoa, como uma antropóloga fez sua formação, fez sua primeira pesquisa e como tem resolvido os desafios da sua pesquisa atual, o Mundaréu humaniza o trabalho científico. Muitas estudantes comentam isso conosco, de que não imaginavam que as profissionais já formadas também enfrentavam dificuldades, medo, assédio, insegurança, indecisão etc. 

Além de humanizar, acho que também cria um repertório de temas de pesquisa, de formas de abordar uma comunidade e as interlocutoras, de modos de estabelecer conversas e entrevistas, de manter a relação, criar confiança e dotar de continuidade esse laço. Aspectos metodológicos e também aspectos éticos e políticos têm aparecido muito nos episódios. Muitas antropólogas nos contaram de saias justas e sinucas de bico que o campo lhes apresentou e como conseguiram fazer alguns jogos de cintura para contorná-los. Mas há muito o que resolver, muito incômodo com o que se deve conviver – o Mundaréu, portanto, ajuda a desmitificar o lugar da pesquisadora. É uma experiência pé no chão, com muitos desafios, muitas durezas, mas também felizes e bonitos encontros, como o próprio formato do programa nos sugere. A pesquisa antropológica não é uma experiência sempre exitosa e dourada, não tem uma receita certa e única para seguir. 

Acrescento que poder ouvir as interlocutoras e como elas veem as antropólogas e a Antropologia é muito importante também. As estudantes têm a chance de conhecer opiniões que raramente aparecem nos textos e artigos ou aparecem somente citados, entre aspas, já interpretadas pela autora. Como foi ter uma antropóloga chegando no seu bairro? E quando ela propôs morar na sua casa e te pediu para conhecer os teus amigos? E quando ela quis fazer uma entrevista sobe a sua história de vida? E quando ela voltou várias vezes em vez de sumir, como tantos outros pesquisadores fizeram? E se ela aceitar participar da sua associação comunitária, conviver com seus filhos, ajudar a cozinhar o almoço? São todas questões que as pessoas foram se fazendo ao conviverem longamente com essas pesquisadoras. 

Por um lado, sacode um certo colonialismo que ainda existe na ciência, de que é a pesquisadora que tudo vê e conta. Por outro, sacode um pouco a culpa que a Antropologia carrega ao chegar e participar da vida das pessoas, porque essas interlocutoras que conhecemos na primeira temporada nos mostram se e como foi que alojaram aquelas pesquisadoras em suas vidas. Como foi algo sempre negociado, e não passivo; sempre foi preciso estabelecer limites e benefícios, a interlocutora também ativamente colocando questões e fazendo a pesquisa amadurecer, num franco trabalho colaborativo e coletivo de construção daquela ciência. 

Para as estudantes das Ciências Sociais que, em geral, vão se desencantando muito do mundo e da própria área, talvez o Mundaréu lhes dê um sopro de alegria e esperança, de que a Antropologia pode ser legal, pode gerar frutos para os dois lados, numa relação com muito mais mutualidade. Mas sem sermos assistencialistas, paternalistas, infantilizadoras ou civilizatórias. 

Então, acho que o programa ajuda na formação das estudantes porque traz um tipo de informação no formato de depoimento pessoal, em primeira pessoa. E contado na forma de histórias, de vivências e não necessariamente com uma carga muito pesada de conceitos e teorias. Embora estejam todos lá também, e muitos são indicados para leitura futura na página de cada episódio no site. O Mundaréu mostra como essa teoria toda é realizada e aprimorada na prática, no dia a dia da pesquisa, na interpelação direta que as interlocutoras nos fazem quando tentamos fazer a nossa Antropologia. 

Você gostaria de abordar algum tópico que não foi tratado nessa entrevista?
Ufa! Acho que foi muito boa a conversa. Agradeço demais pelo convite, pela oportunidade para pensar e refletir sobre o Mundaréu. 

Convido a todas e todos a conhecer o nosso trabalho, ouvir os episódios,  pelo site ou pelos tocadores mais usuais, e nos dar retorno sobre como podemos melhorar e aprimorar. Estou disponível pelo e-mail do Mundaréu (podcastmundareu@gmail.com) e pelo meu e-mail profissional (soraya@unb.br). 

Sugiro, também, que as pessoas conheçam outros podcasts de Antropologia que surgiram no último ano. É uma área que tem crescido enormemente e com diferentes formatos, tamanhos, objetivos. É super bacana ver essa fertilidade: Conversas da Kata (PPGAS/UnB), Conversas In(convenientes) (UFSC), Antropólis (UFPel), Observantropologia (UFPB), AntropoLógicas (UFPE), Antropologia e Pandemia (IFCH/Unicamp), Selvagerias (PPGAS/USP), Poéticas sociais (UFU), Ciências Sociais e coronavírus (ANPOCS). 

Muito obrigada, novamente!

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