domingo, 27 de outubro de 2019

Entrevista: coordenador fala sobre o Enancib 2019



A 20a edição do Encontro Nacional de Pesquisa em Ciência da Informação (Enancib), principal evento da área no Brasil, aconteceu entre os dias 21 e 25 de outubro na Ponta das Canas, em Florianópolis. É a terceira vez que a cidade sedia o Encontro. Foram cerca de 750 inscritos e 810 trabalhos submetidos, dos quais 452 foram aceitos pela comissão.

O coordenador do Enancib 2019 concedeu uma entrevista para o blog Dissertação Sobre Divulgação Científica. O professor Adilson Luiz Pinto, coordenador do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), falou sobre os desafios de organizar um evento desse porte em tempos de dificuldades para a ciência. 

Para ele, o Enancib é fundamental para a área, mas tem perdido importância em relação aos indicadores oficiais de avaliação. “Nos dois últimos anos, as produções do Enancib praticamente não deram pontuações. Eu acho que deveria valer pelo menos o equivalente a uma revista B1 no antigo estrato”. 

Adilson também enfatizou a necessidade de a universidade pública reforçar as interações sociais e comunitárias, inclusive através da divulgação científica, defendeu formas alternativas de publicação de pesquisas, como a utilização de vídeos, e comentou sobre o papel da Ciência da Informação frente às fake news, um dos principais temas e desafios da sociedade contemporânea.



Confira esses e outros tópicos da entrevista!



Como foi a organização do Enancib?

Esse ano, nós organizamos o Enancib com a participação de um grupo de aproximadamente 50 pessoas, incluindo alunos de pós-graduação e voluntários da graduação. A gente dividiu algumas linhas de trabalho, que foram as principais frentes da coordenação para o Enancib. 

Uma delas foi o espaço físico. Tivemos um trabalho duro para encontrar o local de realização do evento. Tentamos realizar na UFSC, mas infelizmente não foi possível. No centro de eventos não há estrutura para comportar um evento do porte do Enancib. Então, preferimos fazer em local fora da UFSC para não reduzir a qualidade em relação aos últimos dois ou três Enancib’s.

Outra frente foi a de locomoção, já que o local de realização foi na praia Ponta das Canas, que fica há 20 km da Universidade. Tivemos que pensar e organizar uma logística para levar os alunos, principalmente os da graduação porque os da pós-graduação conseguiram se articular.

Também tivemos que pensar na distribuição de kits que foram entregues, especialmente aos autores das teses e dissertações premiadas. Outros grupos se dedicaram a organizar o jantar, que foi por adesão, e aos serviços de hotelaria. Houve também uma equipe só para os trabalhos de mídia e divulgação, atuando no nosso site e em todas as principais redes sociais.

Como funcionou a estrutura para organizar o Enancib em 2019?

O Enancib, especificamente, não é vantajoso para quem organiza porque exige gastos altos e complexos. Gastos como passagens e hospedagem de coordenadores de Grupos de Trabalhos (GT’s) requerem um equilíbrio econômico nem sempre fácil de obter, ainda mais em ano em que não há recurso disponível. Nesses períodos, temos que usar muito mais a criatividade. Cada um dos participantes da comissão regional teve que buscar recursos dentro das próprias universidades.

Nós não conseguimos incentivos das agências de fomento, mesmo sendo contemplados por um edital. Fizemos tudo por conta própria, só com os valores das inscrições. Não aconselho a nenhuma outra organização de evento da Ciência da Informação a fazer dessa forma. É muito difícil. Realizamos esse Enancib com a cara e a coragem, tentando reduzir custos, mas sem  perder a qualidade. 

As pessoas que organizam o Enancib, fazem muito mais por amor à camisa e à área. Nós conseguimos realizar o Enancib sem prejuízo porque foi em Florianópolis. Se fosse em outra cidade sem tanto apelo turístico, não daria para fazer só com inscrição.

O coffee break, por exemplo, deve ser de qualidade, porque é um momento fundamental para trocas de informações e formação de parcerias. Então, é um momento que precisa ser o mais agradável possível. 

O tema do Enancib de 2019 foi “Ciência da Informação e a era da ciência de dados”. Por quê?

Os dados são extremamente importantes para tudo na vida. Em eventos anteriores, o tema dos dados foi apresentado de forma fragmentada, não foi apresentado como um ponto central da Ciência da Informação. Além disso, o nosso programa aqui da UFSC tem vários pesquisadores que trabalham com tecnologia. A própria reformulação do programa, há cerca de cinco anos, já teve foco nos dados: como utilizá-los, reutilizá-los, a forma como são minerados, tratados, filtrados etc.

Então, a gente já vem discutindo isso em relação à gestão da informação e à organização e representação do conhecimento, assim como o dado dentro das competências informacionais e das profissões.

O tema dos dados ganhou tanto fôlego e importância, que tem implicações diretas em praticamente todos os âmbitos da nossa vida. Em relação à política e às eleições, é possível, através do tratamento de dados, praticamente predizer quem vai ser eleito.

É o momento de a Ciência da Informação chamar a responsabilidade para si e explorar melhor o tema dos dados. Todas as revistas e eventos internacionais importantes tratam sobre esse tema. Por que não explorá-lo no Brasil, também?



Como foi composta  e escolhida a programação, incluindo os temas das atividades?

Desde o ano passado, quando a gente solicitou a organização do evento, deixamos em aberto para qualquer pessoa com interesse em promover curso ou qualquer outra atividade enviar a proposta para análise.

Em relação aos workshops, que antes estavam inseridos nos “eventos pós-Enancib” e agora estão em “eventos do Enancib”, tivemos sete atividades. Também sediamos o 9° Encontro Nacional de Educação em Ciência da Informação e o Congresso Internacional em Tecnologia e Organização da informação, este englobou o 5° Simpósio Brasileiro de Ética da Informação. 

Destaco, também, um workshop sobre ciência policial, realizado pela Polícia Federal. O nosso programa aqui na UFSC tem 24 mestrandos que são agentes da Polícia Federal, com a qual mantemos projetos relacionados à Gestão da Informação e Tecnologias de Informação. 

Outras atrações foram o 1º primeiro Seminário Internacional de Competências em Informação e o 3º Seminário de Pesquisas e Práticas sobre Competência em Informação de Santa Catarina. Outros workshops abordaram a Co-criação de Valor em Unidades de Informação e a Engenharia e Ciências de Dados, que é mais ou menos uma tentativa de mostrar ações da Ciência da Informação na área de indústria tecnológica.






O Enancib completou 20 anos em 2019, período em que foi sediado três vezes em Florianópolis. Como você avalia o desenvolvimento do Encontro ao longo dessas décadas?

Eu já participo do Enancib desde 2007, sempre com alguma pesquisa publicada. As discussões e os temas, geralmente, acompanham assuntos e acontecimentos internacionais relacionados à competência da Ciência da Informação. O Enancib não é um ponto fora da curva dos outros eventos internacionais. Para se ter uma ideia, eu fui ao evento da ISKO, no qual boa parte das discussões envolvia os dados, tema do nosso Encontro esse ano.

O Enancib já teve mais importância para a Ciência da Informação. Quando surgiram os primeiros sistemas do Qualis, o Encontro era classificado como artigo A1. O evento era muito valorizado. Com o tempo, houve enfraquecimento do Enancib, em termos de pontuação para a área. 

Até a última avaliação da Capes, o Enancib era avaliado como B1. A partir de 2017 para cá, não há possibilidade de pontuação do Enancib. A política tem sido valorizar as revistas. Para a nossa área, especificamente, isso tem bem menos representatividade. Na nova proposta, nenhuma revista A1 é da Ciência da Informação e nem da Comunicação. É possível que não tenhamos desenvolvimento da área nos próximos anos, com a redução das reflexões. 

Nos dois últimos anos, as produções do Enancib praticamente não deram pontuações. Eu acho que deveria valer pelo menos ao equivalente a uma revista B1 no antigo estrato. No evento surgem trabalhos extremamente importantes. Eu sempre cito como exemplo um dos artigos da professora Marisa Bräscher, aqui da UFSC, publicado no Encontro, que hoje tem mais de cem citações.

Se você fizer uma busca no Publish or Perish com o termo “Enancib”, você vai encontrar artigos com mais de 50 citações. Ou seja, o Enancib é um evento muito bom para a produtividade e as reflexões da área. Alguns trabalhos do Enancib têm mais citações do que muitas revistas A1 do estrato anterior. Eu acho que seria muito pertinente a criação de um Qualis específico para eventos, justamente pensando na valorização do Enancib, no ISKO e em outros eventos relevantes, o que seria um estímulo fundamental para pesquisadores participarem desses eventos.

O Enancib é fundamental para todos os estágios da academia, desde o aluno que está iniciando o mestrado até o pesquisador já em estágio avançado na carreira, passando pelo pós-graduando já mais maduro no doutorado. Eu acho, inclusive, que o Enancib deveria contemplar os alunos de iniciação científica. É o maior evento que a gente tem no Brasil, e deve ser valorizado.

Como a realidade da ciência hoje em dia tem afetado a Ciência da Informação, desde os programas até as bolsas e os periódicos?

Boa parte do que as universidades conseguem fazer hoje é em parceria com outras instituições também da esfera pública, tanto para custear pesquisas quanto para viagens para apresentação dos trabalhos, entre outras finalidades. 

Há pouco tempo a UFSC dispunha de 45 milhões de reais para todos os custeios. Hoje o valor é de 4,5 milhões. Isso dificulta a própria realização de pesquisas e eventos. Essa realidade se manifesta, inclusive, na organização do Enancib, como dificuldade para arcar passagens, materiais de divulgação etc.

Nesse sentido, é importante a gente mostrar para a sociedade o que é e o que representa a universidade. Fazemos educação, pesquisa, promovemos ações comunitárias, criamos, desenvolvemos e difundimos tecnologias. A UFSC é a quinta melhor instituição de ensino federal brasileira. Somos a melhor instituição em termos de ciência citada. Temos uma internacionalização bem consolidada, uma produtividade científica bem sólida. 

O país deve valorizar e investir nas universidades públicas, que realizam mais de 90% das pesquisas no país e criam muitos serviços e produtos incorporados por indústrias e pela população em geral. O volume de trabalho e a prestação de serviços da universidade para a sociedade é enorme.

Um professor chega a ficar 90 horas por semana na universidade, porque a gente não dá só aula. Fazemos pesquisa, extensão, temos monitoria, uma infinidade de tarefas.

Muita gente não conhece o que a gente faz aqui. É muito importante a universidade integrar as pessoas, ter trabalhos de comunicação que mostrem o que fazemos. Eu gostaria que a imprensa tradicional dedicasse mais espaço e tempo para mostrar as nossas pesquisas e outros trabalhos de ciência, tecnologia, inovação e da educação. A universidade pública deve ser interpretada como um grande valor, como importante patrimônio para a sociedade brasileira. 

Mais do que nunca as universidades públicas devem investir na divulgação científica, então … 

Sem dúvida. A Universidade perde bastante espaço quando não mostra diretamente para a sociedade tudo o que produz. Poderíamos trabalhar mais próximos, por exemplo, dos ensinos básico e secundário, principalmente formando parcerias com outras instituições públicas de ensino. Uma possibilidade é realizar visitas periódicas de estudantes nos nossos laboratórios e outros ambientes de ensino e pesquisa. Isso dá familiaridade com o contexto da ciência, tecnologia, inovação e com a educação, amadurece intelectualmente. É até mesmo um chamado para que os estudantes venham fazer os nossos cursos.

É verdade que há muitas iniciativas importantes e produtivas de divulgação científica, mas em geral são trabalhos isolados. É necessário, inclusive, que pesquisadores estejam antenados com as novidades da comunicação digital e com a linguagem audiovisual, o que inclui o Youtube e outras redes. 

O nosso modelo de comunicação na academia é muito tradicional, é o mesmo padrão desde 1665, quando surgiram as revistas científicas. Só mudou o formato, mas é a mesma representação do impresso. Não houve evolução. Por exemplo, a gente não consegue colocar nessas revistas outras atividades e outras formas de ver e interpretar a ciência. Por que a metodologia de uma pesquisa não pode ser gravada? Pode facilitar a compreensão  e a reprodução do processo. 

Quando a gente precisa mexer em qualquer equipamento eletrônico e não sabe como, nós em geral pesquisamos todo o manual ou vamos direto ao Youtube assistir aos vídeos? Qual opção é mais prática e usual?

Imagina vídeos curtos em que estudantes e pesquisadores explicam o desenvolvimento dos dados trabalhados no artigo, como se deu cada passo metodológico … não tem como não validar um trabalho assim. Algumas áreas começaram a realizar divulgações nesse modelo. A Plos One, por exemplo, já publicou parte de artigos em vídeos.

Então, a divulgação científica é prejudicada quando utilizamos linguajar inadequado, no sentido de não ser familiar e de fácil acesso a quem não é da academia. Precisamos rever a comunicação e a divulgação científicas. Não aproveitamos bem as oportunidades tecnológicas do nosso tempo, que estão aí acessíveis.

Pior, quando aparece um pesquisador competente em divulgação, ele é visto com distanciamento, tem pouca recepção do meio acadêmico tradicional. O trabalho de comunicação desse pesquisador e divulgador não é bem aceito, o que é um grande desestímulo. Mas, se quisermos aumentar o espaço na sociedade e a importância da universidade na percepção pública, temos que saber divulgar, informar, ouvir e interagir.

Qual é o impacto da altmetria para os chamados indicadores métricos tradicionais, que é o seu campo de estudo?

Eu não gosto de dar nomes específicos para cada um dos tipos de estudos métricos, porque um campo acaba interferindo em outros.

Na verdade, há uma infinidade de métricas aplicadas a qualquer área do conhecimento. A infometria trabalha exclusivamente com a recuperação da informação. O foco são palavras, buscadores, terminologias. A bibliometria se dedica à quantificação da informação bibliográfica. Há muita confusão sobre a bibliometria como termo referente à biblioteca. Uma coisa não tem nada a ver com a outra.  Ela é específica para informação bibliográfica. 

Há, também, as métricas voltadas para as unidades de informação, que são a arquivometria e a biblioteconometria. A cienciometria é dedicada a disciplinas, a áreas do conhecimento e com indicadores do desenvolvimento científico de um país. Já a sociometria dá base para a gente fazer análises das relações e estruturas sociais, trabalhando com dinâmicas de grupo, teoria de Gestalt.

Recentemente surgiu a altmetria, que eu considero uma evolução da webometria, que por sua vez trabalha com o impacto na web. O problema é que a gente confunde muito a webometria como um termo para analisar revistas, e não é só isso. A webometria lida muito mais com as menções que você recebe e as menções que direciona a outros sites. Então, basicamente é link de entrada e de saída. 

O diferencial da webometria é que ela ganhou muitos espaços em indicadores, em rankings. Surgiram muitos rankings que trabalham com o impacto da informação científica na rede. Mas, rankings também apresentam tendências em favor de determinada instituição ou país. Mesmo porque as bases que eles utilizam são bases regionais, não nacionais. Por exemplo, a Web of Science é base regional americana, é baseada nas revistas dos Estados Unidos.

A altmetria veio para tentar pegar o gancho com alguns indicadores que a gente não consegue captar, como de onde vem o acesso, quantos downloads foram feitos, quantas visitas a página recebeu, quais menções foram feitas dentro de um link para o outro etc. 

Há revistas que estão lançando números especiais com os artigos que mais ganham curtidas. Recentemente publicamos um trabalho na revista Journal of Librarianship and Information Science. Antes mesmo de lançar o artigo, eles lançaram uma versão inicial da pesquisa que teve mais de mil acessos. A partir daí nós fomos convidados para publicar outro artigo no periódico. 

Então, algumas revistas já estão usando isso como parâmetro para, por exemplo, montar números especiais, para saber o que o público está consumindo, onde está consumindo. O legal disso, da altmeltria, é que não lida só dados científicos, são dados de acessibilidade da revista e de artigos que realmente têm impacto na sociedade. 

Antes, a gente fazia isso com a cienciometria, agora a gente já consegue fazer isso em tempo real. Alguns artigos são citados antes mesmo de ter a publicação com número e volume. Simplesmente é colocado no site e já é citado, inserindo o endereço como parâmetro informativo.





Você havia comentado sobre a centralidade das fake news hoje em dia. Como a Ciência da Informação deve lidar com esse tema?

Esse é um tema para o qual o profissional da informação deve estar atento, preparado para entender e lidar com esse fenômeno. É um tópico fundamental para as atividades e os desafios do bibliotecário, do arquivista, jornalista, enfim, de todos relacionados à Ciência da Informação. 

A International Federation of Library Associations and Institutions (IFLA) tem um canal a partir do qual as pessoas fazem pesquisas para saber se determinada informação ou notícia é ou não fake news.

Nós poderíamos criar um canal com propósitos semelhantes. Isso é fundamental. Eu faço parte de vários grupos relacionados à Ciência da Informação, e frequentemente nos deparamos com fake news difundidas por algum professor. Não é por má-fé, mas sim porque acredita em determinada informação e a reproduz. 

É papel da Ciência da Informação encabeçar uma campanha de repúdio às fake news. É uma postura que seria importante para a área nos próximos anos.

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

Fiocruz lança Porto Livre - plataforma para livros em acesso aberto


O Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde lançou o Porto Livre, que reúne livros em formato digital, oferecendo aos internautas acesso livre a centenas de títulos com temáticas sobre comunicação, informação, saúde pública e ciências sociais. É um acervo online que seleciona, organiza e disponibiliza obras importantes para o fortalecimento da ciência e do pensamento social no Brasil — e que possam ser compartilhadas, debatidas e lidas livremente, de forma gratuita. 

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Entrevista: cientistas precisam investir na presença online, diz professor da UFAL


"Divulgação científica", "marketing" e "redes sociais" nunca foram termos muito, digamos, receptivos entre a maioria dos pesquisadores no Brasil - pelos menos na perspectiva acadêmica mais tradicional. Até porque outros conceitos guiam o sistema de produtividade em Ciência e Tecnologia.

Mas, em tempos de contingenciamento na C&T, conversar com a sociedade, participar da opinião pública e influenciar as decisões políticas são atividades fundamentais e requerem esforços criativos dos cientistas e outros profissionais da academia.

O pesquisador Ronaldo Araújo, professor de Ciência da Informação da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), defende que os pesquisadores precisam abrir os horizontes para as oportunidades que as redes sociais oferecem. Segundo ele, são plataformas digitais com muitas possibilidades de comunicação, relacionamento e de captar métricas que ajudam a entender parte do impacto da ciência, também, fora da academia. É a chamada altmetria. Você já ouviu falar sobre esse tema? Confira mais na entrevista:

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O que significa o cientista ter presença online? 

Atualmente, as mídias e redes sociais, enquanto dispositivos de redes e conexões por natureza, potencializam debates sobre temas como visibilidade, presença e reputação online. São poderosos instrumentos de comunicação e divulgação científica, podendo contribuir em muitos aspectos na questão de como a sociedade enxerga a ciência e os cientistas. 

Portanto, essa discussão envolve visibilidade, impacto e gestão da imagem do pesquisador. É possível identificar traços de si na rede, do seu trabalho, de sua pesquisa e atuação, mesmo não aderindo às redes sociais. Os usuários destas plataformas em algum momento mencionam as pesquisas, instituições e os pesquisadores. 

Logo, investir na presença online significa que o cientista assume para si as informações sobre ele e as pesquisas que desenvolve, não as "terceiriza". Isso abre caminho para que o contato com o público seja humanizado, permitindo à sociedade conhecer mais sobre a ciência não só pelo que é pautado na mídia, mas também pela voz do próprio cientista.

Por que o pesquisador e outros profissionais da academia devem investir na presença online?

Além do que foi mencionado sobre a possibilidade de usar espaços online para a gestão da própria imagem e ampliar as formas de acesso e de divulgação, vale lembrar que o sistema de comunicação científica tem ao longo do tempo recebido inúmeras críticas sobre formas tradicionais de avaliação (indicadores bibliométricos baseados em citação, fator de impacto, etc.). 

Junto a essa insatisfação e devido ao amplo uso da internet e dos recursos da web social no suporte a atividades de pesquisa, temos percebido um deslocamento não só das métricas tradicionais para métricas alternativas, como dos periódicos (fator de impacto) aos artigos (métricas em nível de artigo) (nota 1), e mesmo em relação aos autores (métricas em nível de autores). Este último considera as múltiplas faces do impacto do autor tendo em vista a medição de todas as dimensões de sua atividade intelectual com os mais variados indicadores (nota 2). Entre eles, os de uso (visualizações, downloads e interações), de disseminação (menções, respostas, comentários, compartilhamentos), de avaliação (atribuição de notas numéricas ou recomendações) e de conectividade social (número de seguidos e seguidores, número de contatos).

O quanto os cientistas estão familiarizados com a linguagem da comunicação online? O que impede a comunidade acadêmica de lidar com mais habilidade em relação a essa área?

Considero que os cientistas estão tão familiarizados quanto a própria sociedade está. A pergunta nos dá uma excelente oportunidade para refletir sobre a crescente adesão às redes sociais para variados interesses, assim como sobre o uso cotidiano dessas plataformas, que pode duelar ou se aliar à prática científica. Quando digo duelar significa que um grupo de cientistas, embora familiarizados com a linguagem da comunicação online e com as mídias digitais, quando fazem usos dessas redes, assumem o ambiente como estritamente pessoal e não para vinculação de informações profissionais e de pesquisa, por exemplo. 

Um estudo recente, com foco na análise da compreensão dos usos de mídias sociais por pesquisadores brasileiros de duas universidades (nota 3), revela como isso tem mudado. A pesquisa aponta que entre as três principais razões dos respondentes para usar as redes sociais, a primeira delas é “compartilhar conteúdos acadêmicos” (61,7%), seguida de “se atualizar sobre notícias em geral” (50,6%) e “fazer divulgação da minha pesquisa, grupo/área para o público em geral” (29,7%). Isso indica haver compreensão da divulgação para a sociedade como parte do trabalho acadêmico e o reconhecimento de que pode ser realizado nesses ambientes. A pesquisa destaca também outras razões, como a de “compartilhar resultados, dados de pesquisa” (27,8%) e “fazer divulgação da minha pesquisa/área para pares” (24,2%).

Eu tendo a considerar que o aumento gradativo dessa familiaridade com a linguagem da comunicação científica no uso prático pode contribuir para reduzir as possíveis barreiras que impedem a comunidade acadêmica de lidar com mais habilidade em relação a essa área.

Qual é a relação entre presença online dos acadêmicos e o marketing científico digital? São sinônimos?

Eu tenho trabalhado o marketing científico digital como estratégia empregada em produtos da ciência, aliada à comunicação científica e à comunicação digital. O intuito é oferecer serviços afinados com as necessidades dos usuários, visando à promoção de periódicos, pesquisas e pesquisadores, com foco na visibilidade científica (nota 3).

Acadêmicos que se interessam por esse caminho e aproveitam o que essas características oferecem para o emprego do marketing científico digital devem
se dedicar a três questões essenciais. A primeira delas é construir e manter uma presença online. A segunda é oferecer um conteúdo adequado aos ambientes onde atuam ou desejam atuar. E a terceira é estabelecer uma atuação responsiva.

A presença online é uma pequena fração deste tipo de marketing. Ela é o marco inicial de ingresso para atingir um público maior e cada vez mais com a web. Os acadêmicos devem considerar, por exemplo, contar com espaços ou perfis institucionais no portal das universidades ou grupos de pesquisa, criar um blog ou perfis em outras mídias sociais, inclusive as redes mais acadêmicas.

Qual é o papel da divulgação científica nesse contexto?

Existem na literatura algumas concepções de divulgação científica que diferem quanto à linguagem, conteúdo e público - desde as que envolvem estratégias de disseminação dentro da própria comunidade científica àquelas que buscam alcançar o público geral. Nos dois casos a divulgação científica pode ser vista como uma aliada na promoção de produtos da ciência e dos resultados das pesquisas. As redes sociais são bons recursos para  efetivar essas propostas. No âmbito do marketing científico digital, a divulgação científica é a etapa na qual se planeja formas de promoção associadas aos objetivos que se pretende atingir, sempre com adequação ao público.

Quem deve praticar o marketing científico digital? O cientista, o setor de comunicação da instituição...?

Eu reconheço a importância de o cientista se envolver nessas atividades como um dos mais interessados. Mas, é bom ter em mente que, dadas as demandas por planejamento e avaliação que o marketing científico digital exige, entendo que essas atividades devam ser aplicadas no nível mais institucional possível. Ainda mais em tempos de revisionismos científicos, movimentos anticiência, de ataques às universidades e ao conhecimento científico. 


Mas, não considero que esta institucionalização deva se restringir às assessorias de comunicação. Podemos pensar em um trabalho que organize frentes de atuação, em unidades acadêmicas, setores e outros atores pensando em programas, iniciativas, produtos e serviços, sempre envolvendo os seus responsáveis no processo de promoção e avaliação.

O marketing científico digital tem integrado os esforços de profissionalização da editoração científica já há algum tempo. Bases indexadoras, como a SciELO, vem considerando desde 2015 o investimento em "marketing e divulgação" das revistas indexadas e das que desejam ingressar na plataforma. Há a exigência para que os periódicos tenham um "plano operacional de marketing e divulgação", que conte, por exemplo, com: a gestão de uma lista atualizada de potenciais pesquisadores, autores e usuários; potenciais leitores; assim como de instituições que disseminem as novas pesquisas nas redes sociais. São usadas plataformas conhecidas, tais como o Twitter, o Facebook e outros sistemas, além de desenvolver mecanismos que fomentem a presença de pesquisadores nos sistemas orientados para a gestão de informação e comunicação em mídias sociais.

Qual é a importância de a Ciência da Informação incorporar esse tema em suas pesquisas e reflexões? E o quanto o tema já está incorporado?

Estamos, de certa forma, integrados nessa discussão. A área se institucionalizou no Brasil na pós-graduação durante a década de 1970, sendo pioneira nos estudos métricos da comunicação científica, sobretudo os tradicionais pautados na bibliometria. Mas, o conceito de comunicação científica, ainda que envolva atividades de divulgação da ciência, sempre foi pouco explorado no campo que se concentrou ao longo do tempo nos estudos baseados em citação, na aplicação das leis bibliométricas e avaliação do impacto dos resultados das pesquisas.

Os usos contínuos da internet e dos recursos da web social no suporte a atividades de pesquisa em ciência aberta têm contribuído para o surgimento de novas métricas ou as chamadas métricas alternativas. Tais métricas têm sido consideradas mais sociais, mais dinâmicas e mais responsivas, pois não estão centradas apenas na circulação e no uso do conhecimento pela comunidade científica, mas também pelo público em geral. Essas reaproximam a comunicação científica à divulgação científica e podem ser consideradas indicadores de avaliação do marketing científico digital. 

A Ciência da Informação tem muito a contribuir para esse tema, seja com mais estudos teóricos e conceituais das similaridades e diferenças desses termos (divulgação científica, marketing científico digital e métricas alternativas), seja com pesquisas empíricas que nos ajudam a compreender melhor os contextos de aplicação de cada um.




"Ainda paira no ar pelas bandas de cá que falar do seu próprio trabalho pode soar presunçoso. Não gostamos ou não lidamos bem com a 'autopromoção' e quase sempre colocamos a divulgação ou o marketing nessa caixa. É um pouco estranho, pois deveríamos ser os maiores interessados em divulgarmos o nosso trabalho".



Você, particularmente, investe na presença e no marketing online? Como?

Eu acho que como a maioria dos pesquisadores no Brasil, por ter "sido treinado" a publicar e não necessariamente a divulgar, sempre tive certa dificuldade para esta última tarefa. Ainda paira no ar pelas bandas de cá que falar do seu próprio trabalho pode soar presunçoso. Não gostamos ou não lidamos bem com a 'autopromoção' e quase sempre colocamos a divulgação ou o marketing nessa caixa. É um pouco estranho pois deveríamos ser os maiores interessados em divulgarmos nosso trabalho. Ainda tenho feito pouco isso, mantenho um blog (que anda bem desatualizado, é verdade) e possuo perfis em algumas mídias sociais, mas não costumo utilizá-las sistematicamente em prol do marketing online. Definitivamente, é algo que preciso melhorar.

Quais exemplos de presença online e MKT científico digital você pode citar como boas referências, tanto no Brasil quanto no exterior?

Mesmo um pouco antes de pesquisar sobre o tema, como um entusiasta de mídias sociais, eu costumava monitorar algumas redes e registrar boas práticas realizadas por instituições, portais de periódicos, revistas, unidades de informação (bibliotecas, museus) ou perfis individuais (pesquisadores e outros profissionais). Aqui no Brasil o movimento ainda é relativamente recente, temos poucos exemplos. Por conta da nossa falta de recurso quase que generalizada, vemos boas intenções, mas pouco profissionalização. Mas, respondendo a sua pergunta, cito três exemplos.

Um dos primeiros periódicos que observei com uma atuação online bem interessante e bem ativo é a Revista História Saúde Manguinhos. O veículo mantém um blog com postagens regulares em português, espanhol e inglês, contas no Facebook e no Twitter. Além da diversidade temática tratada pela revista e retratada em seus canais, a sua gestão demonstra bom conhecimento do público que interage com o conteúdo. Isso, inclusive, na seleção do idioma e na conexão, quando possível, através de datas comemorativas, o que tende a envolver o público.

Um perfil de biblioteca no Facebook que tem chamado atenção é o da Biblioteca de Ciências Jurídicas da UFPR. Além da atualização frequente, a página combina os conteúdos temáticos com assuntos do cotidiano, intercalando com bastante humor e com o uso recorrente de memes. Isso dá leveza à página, torna-a bem atrativa.

No Twitter, um perfil que costumo mencionar nas minhas palestras é o da University of Manchester Open Access,  mantido pela National Research Library of The University of Manchester, e que foi criado para divulgar o Repositório Institucional, valorizando a pesquisa sobre acesso aberto da instituição. Até então, esse perfil poderia ser considerado só mais uma presença online de um repositório institucional, mas a sua estratégia de comunicação dá a ele um diferencial que precisa ser comentado. Threads, emojis, menções, hashtags e imagens fazem parte da estratégia de comunicação da conta, que se utiliza das métricas alternativas para indicar conteúdo a usuários de interesse. Nesse último ponto demonstram um nível de profissionalização que merece destaque quanto ao uso de métricas para apoiar narrativas sobre pesquisas. Um script que eles utilizam recupera todas as contas de mídias sociais (por meio da API Altmetric) que mencionaram artigos de determinado campo de pesquisa, tabulando os dados para serem classificados na contagem dos seguidores ou no total das menções. 

Qual é a relação entre presença online da academia e as novas alternativas métricas das publicações, que utilizam, por exemplo, redes sociais para analisar o desempenho de publicações e pesquisas científicas?

O amplo uso da internet e das redes sociais tem dado subsídios para diversas pesquisas, e o crescimento de novas ferramentas acadêmicas online tem nos permitido criar novos filtros. As métricas alternativas surgem nesse contexto de adesão da comunidade acadêmica a esses recursos e no reconhecimento de que necessitamos de mais filtros para entender, recuperar e avaliar a literatura acadêmica. 

A presença online de acadêmicos amplia a circulação de pesquisas na web social. As interações em torno dessa circulação aumentam a visão de desempenho e o impacto das publicações com a possibilidade de verificação de "impacto social" ou indicação de interesse público. Isso porque, diferente das métricas tradicionais, não se restringe à academia e, ainda, nos ajuda a lembrar que o impacto de uma pesquisa deve ser visto para além da citação que recebe.


Uma das suas pesquisas buscou compreender a presença online de pesquisadores da Universidade Federal de Alagoas. Quais foram os principais resultados encontrados?


A pesquisa buscou investigar o fenômeno da presença e refletir sobre a reputação online, a imagem pública do pesquisador e as suas implicações para a comunicação científica. Foram analisados dados da presença de 822 pesquisadores da Universidade Federal de Alagoas nas principais redes acadêmicas: AcademiaEdu, ResearchGate, Mendeley e Zotero (6). 

Houve um equilíbrio entre respondentes homens (50,3%) e mulheres (49,1%) com idades variando entre faixas etárias de 21 a mais de 70 anos. Sobre a atuação, 71,8% se dedica ao ensino e pesquisa, 17,3% somente à pesquisa e 10,9% ao ensino, com representatividade em todas as áreas de conhecimento. Um total de 32,8% de pesquisadores têm entre 31 e 40 anos, outros 25,5% estão nas faixas de 41 a 50 anos, com mesmo percentual entre 51 a 60 anos. 

Quando a análise se volta para as áreas do conhecimento, três exemplos indicam diferenças no uso de redes sociais: 


      • Nas Ciências Exatas e da Terra a maioria dos acadêmicos é formada por homens (70,3%) que trabalham há mais de 20 anos (38,5%) tendo o ResearchGate (70,7%), WhatsApp (52,4%) e Facebook (48,8%) como redes sociais mais usadas; 
      • Nas Ciências Humanas, há pequena maioria feminina (53,1%), com quadro mais jovem – trabalham há cinco anos ou menos (32,3%), tendo o WhatsApp (67,4%), Facebook (59%), Academia.edu (52,5%) como redes sociais mais usadas ; 
      • E na área da Saúde, a principal faixa etária é entre 31-40 anos formada, sobretudo, por mulheres (68,4%) que trabalham há cinco anos ou menos na universidade (37,9%), tendo o WhatsApp (75,9%), ResearchGate (61,1%) e Facebook (48,1%) como as principais redes.
Há algum tópico sobre o qual você gostaria de abordar, mas deixamos de falar durante a entrevista?

Particularmente, penso que estamos pagando um preço alto por nos posicionarmos por tanto tempo nesse distanciamento entre comunicação científica e divulgação científica. Precisamos repensar bastante sobre os esforços, quer individuais ou institucionais em relação à divulgação. 

Além dos sistemáticos cortes e desmontes das políticas de fomento à pesquisa o recente estudo conduzido pelo Instituto Nacional de Comunicação Pública da Ciência e Tecnologia (INCT-CPCT) revela isso ao mostrar que os jovens têm interesse pela ciência e tecnologia, mas desconhecem a produção científica do pais, assim como as instituições de pesquisa e os cientistas (5). Essa realidade precisa vir sempre a nossa mente para pensarmos mais na divulgação científica, sobretudo em ambientes online, por serem os locais mais utilizados pelos jovens para obter informação sobre ciência e tecnologia, segundo a mesma pesquisa.   


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Notas:

(1) Neylon, C.; Wu, S. Article-Level Metrics and the Evolution of Scientific Impact. PLoS Biol v.7, n.11, 2009. https://doi.org/10.1371/journal.pbio.1000242

(2) ORDUÑA-MALEA, E.; MARTÍN-MARTÍN, A.; DELGADO-LÓPEZ-CÓZAR, E.. The next bibliometrics: almetrics (author level metrics) and the multiple faces of author impact. El profesional de la información, v. 25, n. 3, mai./jun., p.485-496, 2016. https://doi.org/10.3145/epi.2016.may.18

(3) BARATA, G. ; ARAUJO, R. F. ; ALPERIN, J. P. ; TRAVIESO-RODRIGUEZ, C. . O uso de mídias sociais por acadêmicos brasileiros. In: 6 Encontro Brasileiro de Bibliometria e Cientometria., 2018, Rio de Janeiro. In: Anais do 6 Encontro Brasileiro de Bibliometria e Cientometria, 2018.. Rio de Janeiro: FioCruz, 2018. v. 6. p. 209-217.

(4) ARAUJO, R. F.. Marketing científico digital e métricas alternativas para periódicos: da visibilidade ao engajamento.Perspect. ciênc. inf. [online]. 2015, vol.20, n.3, pp.67-84. ISSN 1981-5344. http://dx.doi.org/10.1590/1981-5344/2402.

(5) Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Comunicação Pública da Ciência e Tecnologia (INCT-CPCT). O que os jovens brasileiros pensam da ciência e da tecnologia? (Resumo executivo). COC Fiocruz, 2019. http://www.coc.fiocruz.br/images/PDF/Resumo%20executivo%20survey%20jovens_FINAL.pdf

(6) ARAÚJO, R. F. Presença e reputação online de pesquisadores em redes sociais acadêmicas: implicações para a comunicação científica. Pesquisa Brasileira em Ciência da Informação e Biblioteconomia, v. 12, n. 2, 2017. DOI: 10.22478/ufpb.1981-0695.2017v12n2.36842

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Entrevista: Pesquisador da USP investe na formação de cientistas divulgadores



"É extremamente preocupante como são divulgadas informações falsas sem base científica, como a polêmica da Terra plana e a das vacinas que causariam autismo. Uma tarefa importante da divulgação científica é a de educar a população no método científico" - Jorge Melendez.



O pesquisador Jorge Melendez no Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas, onde pesquisa sobre gêmeas solares e se dedica à divulgação da ciência. 


A Astronomia é um campo científico que tradicionalmente desperta grande interesse social. A matéria escura, o Sol, a possibilidade de vida em outro planeta, o Big Bang, o buraco negro ... tudo isso permeia a curiosidade e a imaginação de muitos de nós (quem sabe, de todos nós!?).

Mas, é uma área que trata de conteúdos nem sempre tão fáceis de entender. Por isso, inclusive, tem crescido a quantidade de cursos e eventos de divulgação científica nessa área. Um exemplo disso é a disciplina "Divulgação em Astronomia", criada como matéria optativa há cinco anos pelo Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas, da Universidade de São Paulo (USP).

O criador e responsável por essa disciplina é o físico e astrônomo Jorge Luis Melendez Moreno. Em entrevista concedida ao blog Dissertação Sobre Divulgação Científica, ele contou que a matéria tem gerado diversos resultados práticos para a formação de pesquisadores com consciência mais clara sobre a importância da interação entre a ciência e a sociedade em geral.




Quando e como surgiu a ideia de criar uma disciplina de divulgação científica em Astronomia na graduação da USP?

A ideia surgiu em novembro de 2012, quando estavam sendo discutidas possíveis disciplinas relacionadas à vertente de Ensino/Divulgação do Bacharelado em Astronomia. Naquela época, não foi identificada nenhuma disciplina na USP com o perfil específico de divulgação científica. Então, eu elaborei uma proposta de criação da nova matéria optativa, chamada "Divulgação em Astronomia", que foi oferecida pela primeira vez por mim em 2014.

Como tem sido a receptividade dos estudantes?

Em geral, os estudantes interessados procuram expandir os seus conhecimentos e as suas experiências fora do âmbito de disciplinas estritamente ligadas a ciências exatas, como matérias de cálculo e física, por exemplo. Parte deles já tinha algum interesse em ensino ou divulgação. A disciplina tem permitido a eles desenvolvam esses interesses através de diversos projetos. 

As experiências têm sido muito positivas, como podemos observar na qualidade dos trabalhos desenvolvidos. Por exemplo, várias hashtags "#AstroThreadBR" que os estudantes usam para divulgar temas da Astronomia no Twitter são destaque no twitter Moments Brasil (MomentsBrasil).

Vários estudantes ficam muito contentes com os resultados de projetos desenvolvidos em diversas escolas, onde são muito bem recebidos, superando expectativas que eles mesmos projetam. Um estudante nosso, o Matheus Castro, trouxe uma escola para o Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG), onde usou pela primeira vez o Observatório no IAG/USP, como demonstração, após a recuperação dos equipamentos da unidade.

Quais conteúdos são abordados nas aulas?

São discutidos diferentes temas de interesse da mídia, os diversos veículos de divulgação, o público-alvo, a importância política da divulgação científica, técnicas de apresentação em público, media training (treinamento para lidar com jornalistas), o modelo linear de comunicação, o papel de cientistas, da assessoria de imprensa, dos jornalistas/divulgadores científicos, do público em geral, as técnicas de comunicação escrita, redação de releases e matérias para o público, jornalismo de dados, possibilidades de especialização, estágios e empregos em divulgação científica. 

Enfim, são muitos os temas. Utilizamos como estratégica, também, a discussão de diferentes estudos de caso, muitas vezes com a participação de importantes divulgadores científicos. Recentemente, o Schwarza, do canal Poligonautas, esteve com a gente para trocar informações, experiência e cultura. Foi bem enriquecedor.

Recentemente, um estudante da sua disciplina de divulgação científica foi contemplado para estagiar no Instituto do Telescópio Espacial Hubble, nos Estados Unidos. Como foi esse processo e quais outros frutos você observa que a disciplina gera?

Foi um processo muito competitivo, com mais de 400 candidatos do mundo todo pleiteando poucas vagas no Instituto do Telescópio Espacial Hubble. Eu divulguei a possibilidade de estágio em uma das aulas, e o aluno Lucas Batista mostrou interesse em se candidatar à vaga. Para apoiar a candidatura, eu escrevi uma carta de recomendação, destacando o projeto de divulgação feito pelo Lucas na disciplina de Divulgação. Foi analisado, inclusive, o perfil e o currículo dele, que fez um trabalho muito bom de divulgação com alunos do Colégio de Aplicação João XXIII, em Juiz de Fora-MG. O estágio está previsto para começar no dia 17 de junho e terminar em 16 de agosto. Fiquei muito feliz em ter um estudante da minha disciplina contemplado para uma vaga de estágio de divulgação científica nesse prestigiado Instituto.

Em relação aos frutos que a disciplina gera, acredito que todos os projetos desenvolvidos pelos alunos foram importantes iniciativas de difusão científica, e serviram para engajar os estudantes nesse necessário relacionamento entre ciência e sociedade. 

Alguns projetos, inclusive, tiveram continuidade mesmo após os estudantes concluírem a disciplina. Por exemplo, temos o projeto Cauda_do_Cometa, relacionando a cultura pop à ciência, via mídias sociais e marcadores de livro feitos para serem distribuídos em escolas. Já o projeto Astro Mulheres destacou importantes contribuições das mulheres à ciência, via desenhos sobre as cientistas e textos sobre as suas descobertas. Para esse projeto foi discutida a possibilidade de ser editado um livro reunindo as contribuições de diferentes pesquisadores. Também fiquei gratamente surpreso com o potencial artístico de alguns estudantes, como por exemplo a Melissa de Andrade. Ela fez uma arte sobre o ciclo do carbono, mostrando como a fonte de energia do interior da Terra é importante para manter essa dinâmica equilibrada. Diversos veículos científicos e da imprensa divulgaram o trabalho, como o Observatório Europeu do Sul, o blog Mensageiro Sideral, da Folha, a BBC Brasil e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).



O estudante Lucas Batista (esq.) com Jorge Melendez.


Arte da estudante Melissa de Andrade sobre o ciclo de carbono.


Em geral, a Astronomia é um campo que interessa à sociedade, estimula a curiosidade das pessoas. Mas, há algum tema específico da área com mais apelo social?

Diversos temas da Astronomia despertam interesse no público, como os buracos negros e a vida no universo. Mas, também existem áreas interdisciplinares com mais apelo social, como a Arqueoastronomia, que procura resgatar o conhecimento astronômico de antigas civilizações. Infelizmente, a conquista de culturas indígenas não apenas dizimou diversas populações, como também promoveu um extermínio cultural em vários territórios. Um papel importante da Arqueoastronomia é valorizar os avanços desses povos. Por exemplo, as culturas andinas do antigo Peru podiam prever as mudanças das chuvas ocasionadas pelo "El niño", usando cuidadosas observações das estrelas Plêiades.

O Brasil costuma ter bons desempenhos científicos e de educação científica em Astronomia, inclusive internacionalmente. Cientistas brasileiros participam de importantes projetos de pesquisas internacionais e grupos de estudantes costumam vencer olimpíadas. Mas, parece que essas conquistas não são tão percebidas pela sociedade. Você concorda? Falta ação dos divulgadores da ciência ou o problema é da imprensa?

Concordo que falta uma maior divulgação das importantes pesquisas sendo feitas no Brasil. Certamente é fundamental uma maior cobertura da mídia. Mas, precisamos também de um maior engajamento dos pesquisadores com a divulgação científica. É urgente estabelecermos uma boa assessoria de imprensa nas diferentes instituições de pesquisa, que possam dar apoio na elaboração de comunicados à imprensa e produção de materiais, como arte e animações para ilustrar as pesquisas. 

Em geral, qual é o posicionamento e a motivação dos seus colegas de profissão, outros cientistas da área, em relação à divulgação científica em Astronomia?

Antigamente, a divulgação científica não era muito bem vista. O foco da Astronomia no Brasil era estritamente acadêmico. Mas, isso tem mudado nos últimos anos. A divulgação científica não é apenas importante para difundir o conhecimento científico à sociedade, mas também é fundamental para educar a população no método científico e para mostrar a importância desse tipo de saber para o desenvolvimento de um país. De fato, cortes brutais no orçamento da ciência e tecnologia, como os anunciados recentemente, ameaçam a possibilidade de um dia o Brasil ser um país plenamente desenvolvido. Um país sem ciência é um país sem futuro. 

Quais são os espaços e as estratégias de divulgação científica que você utiliza?

Eu gosto de fazer divulgação científica usando diferentes espaços. Mas, realizo essa atividade com limitações porque sou muito envolvido com a pesquisa, o ensino e a formação de novos astrônomos. Isso demanda muito tempo e dedicação. Eu tento fazer esforços que possam atingir um vasto público, como por exemplo as divulgações das nossas pesquisas através de comunicados à imprensa, o que pode atingir milhões de pessoas, dependendo do veículo. Tenho uma participação ativa de divulgação no Twitter, por meio das contas AstroUSP e DrJorgeMelendez. Também, sempre que possível, tento fazer divulgação presencial, como através de palestras abertas ao público.




Qual é, atualmente, a sua principal questão de pesquisa?

O meu principal projeto de pesquisa é o estudo de gêmeas solares (estrelas muito similares ao Sol) e a procura de planetas ao redor dessas estrelas.

O meu grupo SAMPA estuda detalhadamente gêmeas solares, em comparação ao Sol, usando a chamada técnica diferencial. Estudar estrelas gêmeas solares de diferentes idades é fundamental para entender o passado e o futuro de nosso Sol.

Ao longo prazo, o nosso objetivo é contribuir para a descoberta do que chamamos de Terra 2.0 (planeta com características semelhantes à Terra). Isso é muito desafiador, pois por falta de pagamento o Brasil foi desligado em 2018 do Observatório Europeu do Sul (ESO), o maior consórcio internacional de Astronomia, que tem instrumentação de ponta necessária para esse tipo de pesquisa.


A Astronomia é um campo científico em que a interdisciplinaridade é bem característica. Relaciona-se com a Física, a Ciência da Informação, com a Matemática, com a História, fomenta profundas reflexões filosóficas e, também, estimula a criatividade artística e poética. Como ocorrem essas relações? É somente uma percepção na esfera do senso comum, ou de fato a área acadêmica lida de forma próxima com essas interações?

Embora a Astronomia seja um ciência interdisciplinar, em muitos casos os cientistas precisam focar em projetos específicos, limitando as possibilidades de interações. Devido à especialização, às vezes é difícil interagir, mesmo dentro de diferentes áreas da Astronomia, e mais complicado ainda com outras disciplinas. Em áreas como a Astrobiologia, a colaboração entre diferentes disciplinas é fundamental, mas na grande maioria dos campos da Astronomia, não existe muita interdisciplinaridade. 

Acredito que a visão geral da Astronomia é muito valiosa para poder explorar as implicações de uma pesquisa específica em um contexto mais amplo. Eu, por exemplo, uso a técnica de espectroscopia, mas a minha pesquisa tem muitas aplicações em diferentes áreas, como Astrofísica Estelar, Exoplanetas e a evolução da nossa galáxia. 

É muito valiosa, também, a possibilidade de interação com diferentes disciplinas, como no caso da Astrobiologia ou da Arqueoastronomia. Para que essas interações possam ser estabelecidas, precisamos de uma visão geral, não apenas das diferentes áreas da Astronomia, mas também das diferentes campos das ciências exatas, biológicas e humanas.

O ministro da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicação foi astronauta. O que isso representa para a área? Há alguma implicação prática, do ponto de vista da capitalização político-acadêmica?


Acredito que a especialidade exata do Ministro de Ciência e Tecnologia não seja muito relevante, desde que seja uma pessoa com formação científica e familiarizada com o meio acadêmico. Mais do que uma pessoa específica, precisamos de políticas que valorem a importância do desenvolvimento científico e tecnológico de um país. Do contrário, estaremos condenando o Brasil ao atraso e à dependência científica e tecnológica. 

Há algum tópico sobre o qual você gostaria de comentar, mas deixamos de abordar durante a entrevista?

É extremamente preocupante como são divulgadas informações falsas sem base científica, como, por exemplo, a polêmica da Terra plana e a das vacinas que causariam autismo. Uma tarefa importante da divulgação científica é a de educar a população no método científico, que é a busca pela verdade via o teste rigoroso de uma determinada hipótese. Ciência não é achismo, ciência é uma contínua construção de modelos do funcionamento da natureza, via hipóteses que podem ser testadas usando experimentos. 

Também gostaria de salientar o apoio da Geisa Ponte na monitoria e nos trabalhos propostos no último oferecimento da disciplina de Divulgação em Astronomia no IAG/USP, em 2018. Agradeço a todos os que têm colaborado com o sucesso da disciplina.

quarta-feira, 17 de abril de 2019

LabJor vai abrir inscrições para especialização em Jornalismo Científico


Para inscrição no processo seletivo da Especialização em Jornalismo Científico leia atentamente o edital contido neste link.

Principais datas

1ª FASE

Período de inscrição: 01/05 a 03/06/2019 – Formulário de inscrição on-line estará disponível somente neste período.

Divulgação da lista de inscrições homologadas: 05/06/2019

Divulgação da lista de aprovados na primeira fase: 17/06/2019

Somente será considerado regularmente inscrito o candidato que tiver realizado sua inscrição eletrônica até 23h59, no horário de Brasília, do dia 03/06/2019.

Atenção: Não haverá prorrogação do período de inscrição.

Todos os documentos para inscrição devem ser enviados em formato PDF


2ª FASE

Prova de redação e prova de proficiência em inglês: 24/06/2019 – Anfiteatro do IEL
Endereço: Bloco VI – Prédio de Salas de Aula do Instituto de Estudos da Linguagem Rua Sérgio Buarque de Holanda, 571

Entrevista: 01/07/2019 – LABJOR
Endereço: Rua Seis de Agosto, no 50 – prédio Reitoria V, 3º piso.

Divulgação dos resultados no site do Labjor/Unicamp: 04/07/2019

Entrevista: coordenador fala sobre o Enancib 2019

A 20 a  edição do Encontro Nacional de Pesquisa em Ciência da Informação (Enancib), principal evento da área no Brasil, aconteceu ent...